segunda-feira, 5 de abril de 2010

NOSSA SENHORA DAS DORES





NOSSA SENHORA DAS DORES


Na cidade de Mariana, éramos acostumadas a frequentar a missa todos os domingos. Ela era celebrada em latim, mas mesmo sem entendermos o que o padre dizia, tudo era emocionante.
Na semana santa, não perdíamos nenhuma procissão. Uma delas, a que eu achava mais bonita, era a que antecede a da crucificação. Nessa, a imagem de Nossa Senhora das Dores sai num andor e se encontra com a imagem de Jesus Cristo, que vem em outro cortejo.
Ao som da banda, que nesse momento tocava uma música sacra, de toques graves e espaçados, mãe e filho ficavam frente a frente, durante alguns minutos. Depois, as duas procissões se uniam, tornando-se uma só. Aí então, mãe e filho seguiam lado a lado, e a multidão de fiéis os acompanhavam silenciosos.

Eu era fascinada pela roupa que Nossa Senhora usava. Era uma túnica de cetim rosa e branco, com um dos lados na cor verde, que ia do ombro até seus pés. As bordas eram douradas.
Nossa Senhora parecia uma rainha! Porém, ali ela acompanhava seu filho que estava sendo levado para o calvário.

Eu era pequena e aquele andor me parecia tão alto, que por mais que eu me aproximasse da Santa, ainda era pouco, comparado com a minha vontade de ve-la bem de perto.

Morávamos na rua Wenceslau Brás. Num dia, eu tinha oito anos e caminhava para a escola, quando passei perto de uma casa que era distante da nossa, apesar de ser na mesma rua.
Essa casa esteve fechada durante muito tempo. Vi três meninos pequenos que estavam naquele passeio. Eles pareciam ter a idade de três a cinco anos. Uma mulher jovem, segurava a mão do menorzinho. Ela era linda, parecia ter uns vinte anos de idade.
Era clara, e os cabelos pretos e cacheados cobriam os seus ombros. O vestido azul, ia até bem abaixo dos joelhos.

Daquela porta saiu um rapaz bonito, trajando uma farda da polícia militar, que despediu-se deles, fazendo um sinal com uma das mãos. Eram os novos moradores daquela casa.

Fui para a escola.
Na manhã seguinte, quando passei por ali, não vi ninguém. Quando voltei, era quase meio dia. Ao me aproximar da casa, as janelas estavam abertas e a porta também.
Parei perto da porta. Vi no meio da sala, aquela bonita jovem, morta sobre uma mesa de madeira.
Ela estava sozinha ali. Então, apareceu uma senhora magrinha num portal e disse-me:
Pode entrar...
Eu entrei e assustei-me com aquele traje lindo que ela usava. Ela estava vestida de Nossa Senhora das Dores. Aquele cetim brilhante, com as mesmas cores da vestimenta da Santa, eram chocantes e bonito ao mesmo tempo.
A mulher magrinha saiu dali e eu fiquei sozinha com ela, naquele silêncio, observando tudo. Pude olhar cada detalhe vagarosamente e bem de perto.
Parecia que Nossa Senhora estava ali para que eu pudesse observa-la de perto.
Era incrível. Até as bordas douradas circundando o cetim, estavam ali, igualzinho o traje da Santa da procissão.

Ali não havia flores, a mesa também não estava forrada. Os seus cabelos estavam ajeitados sobre os ombros.Seu lindo rosto estava tão branco que parecia mesmo uma imagem de cera.
O silêncio era total.
Num certo momento, eu ouvi um choro contido e muito baixinho que vinha do quarto ao lado.
Eram as crianças. Parecia que alguém estava impedindo que elas chorassem; e de vez em quando, um soluço abafado era entrecortado, parecendo um gemido.

Senti um aperto no coração e saí dali, olhando para trás... para guardar pra sempre, aquela visão.
A única diferença dela para a Nossa Senhora da procissão, era porque a santa da igreja, chorava a morte do seu filho, enquanto aquela santa que estava ali, pertinho de mim, deixou seus filhos chorando por ela.

Chequei em casa amargurada e no rádio estava tocando o sucesso do momento, que era a música "Oh Kero" do cantor "Neil Sedaka".
Ninguém por ali chegou a conhecer direito aquela família, que logo em seguida mudou-se de lá.
Surgiram rumores que aquele soldado teria matado a sua mulher, já que ele a espancava com frequência.

19/09/2004


Sobre o traje dela, minha avó falou que certamente ela tinha essa vestimenta guardada, porque era comum, as mulheres fazerem promessas de acompanhar uma procissão, vestindo o traje da Santa de quem eram devotas. Disse que essas promessas eram quase sempre, pedindo uma boa hora, no momento de darem a luz.

2 COMENTÁRIOS:

Virgínia Allan disse...
Olá, Amapola... esquecemos mesmo que existem muitos "brasis". Também contas belas e tristes hiistórias, histórias da vida real. Gosto muito delas, me fazem lembrar de mim. Obrigada.
Virgínia Allan disse...
Amapola, obrigada carissima pela apreciação dos meus textos. É sempre bom receber sua visita. Beijo

2 COMENTÁRIOS:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...
Minha querida! Bom Sábado de Aleluia para vc! Que Deus a ilumine sempre! Maravilhosa narrativa. Não duvido de modo algum. Mas nem sempre conseguimos tudo sozinhas.
Não estava muito bem, mas já estou superando, porque um ser, ao qual eu havia oferecido um poema de Paz, simplesmente foi ao meu Blog e me desrespeitou. Sei que me entende. Já publiquei em outros blogs está passando. Muito obrigada, amiga de sempre.
Beijos***********
Tudo de Bom!

"SEM CUIDAR QUE ESTAVA SÓ...

Sem cuidar que estava só,

Em mãos à obra deitei;

Dia e noite trabalhei,

— De cansada dava dó, —

E, dos pés, o sangue ao pó

Das estradas se juntava

Numa pasta ensangüentada

(Que eu dizia "é pão-de-ló");

Mais moidinha ficava

Que o trigo ao sair da mó.

by Ester Cordeiro in memorian"

Sei que não estou só! Vc está comigo!
+ beijos************
Fabiano Mayrink disse...
Oi Amapola to passando pra retribuir os votos de bom renascimento desejo para voce tambem um abraço!

18 comentários:

  1. Testando esse espaço para comentário.

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  2. Oi querida Amapola,
    tenho deixado recados, mas parece que algo deu errado.
    Um conto triste que narra a nossa realidade, infelizmente.
    Uma semana de leveza e paz.
    Beijo grande,
    Fátima

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  3. Nossa amada eu amei a sua postagem.
    Vc teve um belo momento embora numa situação um tanto triste.
    Parabéns pelo relato.
    Um beijo grannnnnnnnnnnnde.

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  4. Amapola minha querida,

    Fico boba com suas memórias. Vc conta de um jeito que eu me imagino no seu lugar.

    Parabéns! Adoro vir aqui!

    bjussssssss

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  5. Maria Amapola,palavras e doçuras,mesmo em tempestade essa from Rio,vislunbro cores,ternura e anizade!

    bzuz de luzzzzzzzzzz

    viva la vida

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  6. Deixo um abraço e um beijinho. Com a alegria no coração de uma Páscoa renovada,

    Gisele

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  7. Você que é tão sensível, percebeu quem é a certa mãe que perdeu o companheiro e o filho no dia na sua frente e por isso perdeu quase por completo a visão? E hoje quase ajuda quem pode, porque sente a dor do outro?
    Renata eu e daí?

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  8. Se essa mãe não receber ajuda, ela não conseguirá mais. Compreende?

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Uma linda semana para você.

    Ah, convido a conhecer o Portal católico, projeto que ajudei no seu inicio

    www.portalcatolico.org.br

    bjs

    Ro

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  11. querida amapola vi agradecer seu carinho querida.
    muito obrigada ainda estou a me recuperar e carinho ajuda muito obrigada bjs!!!

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  12. Parabéns pelo blog. Seguindo já. Passa lá no Molhe-se:

    http://molhe-se.blogspot.com/

    Beeejo.

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  13. Amapola amadaaaaaaaaaaaaaa. Voce sempre com essa capacidade de emocionar a gente com essas passagens tão lindas, mesmo que tristes.
    Minha amiga, voce foi um "Achado" na minha vida. É tão bom ler o que voce escreve, se encontrar em muitos escritos, e poder se emocionar. Deixo-te aqui um abraço enormeeeeee, do tamanho do mundo.
    Aqui chove muitoooooooo, mas o dia tá bonito. Tudo depende sempre com que olhos olhamos a vida né?
    Beijooooooooooooooooo!

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  14. Amapola Gema de ovo é ótima mesmo para os cabelos, não é atoa que tem cremes e cremes que as usam ou dizem que usam rs, mais confesso a você que tenho um pouco de nojo de ovo, mais para um cabelo loiro brilhante e bonito vale a pena!! Para cabelos loiros também é ótimo passar de vez em sempre cha de camomila!

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  15. Que história bonita, o interessante essa analogia que você faz entre a Nossa Senhora Das Dores e a morta : "Eu era pequena e aquele andor me parecia tão alto, que por mais que eu me aproximasse da Santa, ainda era pouco, comparado com a minha vontade de vê-la bem de perto." com "Parecia que Nossa Senhora estava ali para que eu pudesse observa-la de perto." A principio não atinei bem, mas depois compreendi, já que é uma reminiscência de sua infância. Parabéns pelo texto, muito bom mesmo!

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  16. Uma linda noite minha querida.
    Beijokas.

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  17. Obrigado amada.
    O importante ñ são os 100 comentários e sim vocês existirem.
    Obrigado amiga.
    Beijokas

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  18. Vim te deixar mais beijos rs.
    Beijos é bom,ninguém esquece pois é nossa alma q ele aquece.
    Beijokas amada minha.

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