domingo, 23 de janeiro de 2011

EM CADA CABEÇA UMA SENTENÇA

EM CADA CABEÇA, UMA SENTENÇA!

Em 1990 eu fui admitida numa indústria têxtil, que tinha a sua estamparia própria. Dias depois chegou uma estagiária de Design, estudante da PUC, cujo curso era subsidiado pelo crédito educativo. Ela morava numa pequena cidade perto de BH, em companhia de sua mãe adotiva. Tinha vinte anos, e era linda... Parecia muito com a Angélica da Globo; porém, era mais bonita do que a própria.

Os fins de semana ela passava no interior. Nas vésperas de um feriado prolongado, ela estava muito ansiosa, porque ia viajar para o Rio de Janeiro, para visitar a mãe biológica e suas duas irmãs.

Enquanto a sala ao lado era preparada para acomoda-la, ela ficou trabalhando perto de mim, e nos momentos de folga conversávamos bastante.

Ela nasceu no Rio de Janeiro e quando tinha dois anos de idade, sua mãe biológica levou-a numa grande loja. Enquanto a mãe distraiu-se nas compras, ela se embrenhou no meio do povo e sumiu.

Sua mãe enlouquecida, pediu ajuda por todos os lados. No microfone da loja, uma voz anunciava o seu desaparecimento, detalhando as suas características físicas.

Depois de muita demora e sufoco, alguém apareceu com ela nos braços, e disse que a encontrou na calçada, perto da loja.

Meses depois sua mãe procurou por uma grande amiga, e insistiu para que a mesma a adotasse. Assim foi feito, e elas vieram para Minas Gerais.

Durante o seu relato ela não mencionou o pai em momento algum.

A mãe adotiva era solteira e não tinha filhos. Nunca lhe escondeu a verdade, e foi muito mais que mãe, para ela. Enquanto falava, ela se emocionou muito, referindo-se ao grande afeto que as uniam.

Ela foi a primeira filha. Depois, sua mãe teve as outras duas, e as criou normalmente.

Eu nunca tinha ouvido nada parecido. Essa moça linda e meiga, trazia no semblante uma tristeza que era fácil de se ver.

Estava na sua face... Estava nos seus lindos olhos verdes!

(23/01/2011)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

VIDA NOVA

VIDA NOVA

Na semana passada eu estava numa fila de um banco. Faltava uns quarenta minutos para ele abrir.

Na minha frente, havia um senhor magro e alto. Ele portava uma bengala, mas parecia não precisar dela, devido à elegância com que andava de um lado para o outro, sem apoiar-se nela, e com um sorriso no rosto.

Num certo momento ele aproximou-se de mim, e disse que nada o importuna mais, porque tem muitos motivos para celebrar a vida.

Eu que adoro histórias, dei-lhe toda a atenção, ouvindo atentamente o seu relato.

Ele contou que há anos atrás teve um aneurisma, e passou por uma operação longa e arriscada. Quando saiu do hospital, saiu numa cadeira de rodas, porque um de seus lados havia ficado paralisado.

Ninguém acreditava que ele voltaria a andar. Ficou três anos levando aquela vida difícil.

Numa noite, sonhou que estava caminhando normalmente, e que o vento roçava seu rosto, fazendo-lhe tão feliz quanto uma criança.

Acordou no meio da madrugada e chamou a sua esposa, para contar-lhe o sonho.

Quando o dia amanheceu, a esposa e o filho levaram-no ao banheiro. Chegando lá, ele pediu que eles o deixassem em pé, sozinho. Eles relutaram, mas fizeram o que ele pediu.

A esposa e o filho permaneceram bem perto dele, certos de que ele iria tombar.

Para espanto de todos, ele sustentou-se sozinho, e conseguiu dar três passos. Foi um momento emocionante em que choraram muito, agradecendo ao Criador.

Pediu ao filho que fosse numa loja e lhe comprasse um andador. Praticou nele por alguns dias, e logo depois já andava pelas ruas, sozinho e feliz, como se tivesse nascido de novo.

17/01/2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

ENTRE FLORES, UM ANJO VULNERÁVEL



ENTRE FLORES, UM ANJO VULNERÁVEL

Há dois anos atrás, um rapaz comentava sobre a vida difícil de quem trabalha em determinadas funções.

Contou que trabalhou numa funerária. Certo dia, depois de sua jornada ele saiu do prédio. Lá fora, lembrou-se que deixou sobre um móvel, um objeto pessoal. Voltou para busca-lo.

Depois de apanhar o seu embrulho, ele viu a outra porta aberta. Ali repousava o corpo de uma menina, que aguardava os procedimentos finais para ser levada para o velório.

Chocado ao ver seu colega de trabalho pertinho do corpo dela, e se vestindo apressadamente, ele certificou-se de que, esse monstro havia estuprado aquele anjinho.

Sem fazer barulho ele quase correu dali, e meses depois pediu demissão.

O monstro continuou lá.

(11/01/2011)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

NOSTALGIA


NOSTALGIA

Quando eu tinha cinco anos, minha avó viajou comigo para a roça, e disse que daquela vez íamos demorar mais, porque quando eu fosse para a escola, não poderia acompanha-la nas suas pequenas viagens.

Fomos de trem. Visitamos todos os parentes. Íamos assistir a festa do Rosário, e por isso a última parada foi na casa do tio dela, o irmão de sua mãe.

O tio Manoel Evaristo morava na única pracinha de Acaiaca, onde durante sete dias, as comemorações religiosas reuniam na igreja, povos de toda a região.
Lá já havia luz elétrica igual em Mariana.

Minha avó, com aquela alegria dela, fazia cada local que chegávamos, parecer festivo. Mas na casa desse tio, a alegria era ainda maior. Os risos eram tanto, que a cada gargalhada, eu me certificava de que ali, ela estava realmente muito feliz.

A todo instante, a conversa deles era interrompida por pessoas, que, sabendo da presença dela, entravam naquela casa, para lhe darem um abraço.
Ali, só moravam o tio Manezim, a esposa dele, e um filho dela, do casamento anterior.

O dia estava ensolarado. Naquela praça havia inúmeras barraquinhas que vendiam de tudo. Estávamos na janela, quando passou um monte de homens negros, trajando túnicas muito coloridas e brilhantes, todos com capas bonitas, feitas de lamê. Uns de vermelho, outros de azul, outros de amarelo.
As fitas coloridas dançavam com o vento.
Pareciam os reis magos dos presépios.

Um deles trazia na cabeça, uma linda coroa dourada; e carregava orgulhosamente uma bandeira onde tinha estampado uma imagem de nossa senhora do Rosário.

Eles cantavam e tocavam uma música tão diferente e sentida... cujo som parecia um lamento que vinha do fundo da alma daquela multidão de escravos que no passado, haviam regado aquelas terras; com suor, lágrima, e o sangue dos seus corpos sofridos e injustiçados.

Senti uma mistura de fascínio e dor. Minha avó apontou com o dedo e me disse:
_É folia de Reis... olha que bonito que é!

Ao sentir a sua voz embargada, eu olhei pra ela, e no meio daquele sorriso, vi lágrimas nos seus olhos.
Depois, quando ela notou que aquela magia já havia tomado conta de mim, ela disse: _Pode ir lá fora, pra ver de perto.
Nesse momento, quando saí naquela porta, parecia que eu havia ganhado o mundo, apesar daquele lugarejo ter apenas uma rua e uma praça.

Sozinha, pude admirar aquele espetáculo! Eu os acompanhei, enquanto eles contornaram a pracinha por três vezes.

Depois, foram para o lado da ponte, para seguirem pelos matos. Aí eu tive que parar, mas aquela música já estava impregnada na minha alma.

Como eu não podia mais segui-los, fiquei observando cada barraquinha, achando lindo tudo que via.
Em Mariana eu nunca tinha visto barraquinhas, nem congado, nem folia de Reis.

Eu era apaixonada por doces. Numa das bancas, havia pedaços de doces de todas as cores. Eles eram cortados em diagonal e eram muito grandes.
Eu não resisti e voltei logo pra casa, para falar com a minha avó, da beleza daquelas delícias.

Não lhe pedi dinheiro, apenas falei sobre a cor deles.
Ela sentou-se na cama e abriu a sua mala marrom de contorno de metal prateado, cujas extremidades tinham uns enfeites que pareciam a metade de uma bola, também prateada. Acho que aquilo era parafuso, camuflado de enfeite.

Do cantinho dessa mala, ela tirou um lencinho branco, listrado de azul claro, amarrado por um nó. Colocou-o no seu colo. Desatou o nó, tirando dali de dentro algumas notas muito emboladinhas e me deu, dizendo:
_Vá... E compre os doces que você gosta.
Corri lá, e voltei com um monte deles.

À noite, parecia que todos estavam ainda mais alegres e animados. Depois de um jantar muito gostoso, fomos para a sala, para acompanhar o movimento.

O tio Manezim era moreno, magro, falante, e muito alegre. Entre os assuntos e risadas, ele se levantava da sua cadeira para abraçar novamente a minha avó. Parecia que aqueles abraços eram pouco, diante da alegria de estar perto dela.

Dez horas da noite ele entrou no quarto para se aprontar, e saiu de lá todo bonito, vestido com um uniforme que parecia mais uma farda. Era azul, com lapela branca nos ombros. Parecia um general.

Nesse momento, minha avó olhou pra ele, e orgulhosamente, disse pra mim:
_Tio Manezim tá bonito assim, porque ele toca na banda, aqui de Acaiaca.
Ele sorriu, sabendo que estava abafando. Depois, despediu-se de nós e saiu para um local distante, onde a banda foi fazer o seu ensaio.

Minha avó me disse que deveríamos ficar acordadas até meia noite, para ouvirmos a banda entrar tocando na Vila, porque esse acontecimento, embora fosse com a praça vazia, significava o início oficial da festa.

Fomos pra cama, para descansarmos. Eu deitada no canto dela, cheguei a cochilar, mas quando o som da banda iniciou-se lá longe..., senti um aperto na garganta.

Aquela bandinha não era igual a de Mariana, que tinha a qualidade das grandes orquestras. Mas sozinha... entrando com altivez na praça solitária, tocando aquela música triste, executada por homens de mãos calejadas que, durante o ano todo haviam trabalhado pesado na roça, esperando ansiosos que o mês de setembro chegasse, para fazerem bonito, oferecendo o mehor de si para a nossa senhora do Rosário, era emocionante!

Senti vontade de chorar, sem saber que aquele sentimento era apenas uma pequena demonstração, da imensa nostalgia que iria me invadir, cinquenta anos depois.

Naquele momento, minha avó pensou que eu estivesse dormindo e disse:
_Maria!... Maria!... Acorda... a banda já vem vindo...
Nos levantamos depressa e fomos para a sala, enquanto a esposa dele abria a janela, onde nós três nos debruçamos, para que tio Manezim visse que estávamos vendo a sua banda passar, quebrando o silêncio daquela madrugada de 1956.

05/02/2005

7 COMENTÁRIOS:

Zé Carlos disse...

Não consegui entender por que vc minha menina querida desapareceu dos meus blogs.

Continuo te achando maravilhosa....

Beijos do Zé Carlos

Virgínia Allan disse...

Amapola, gostosissimo post... adorei a leitura rechada de ternura. Lindo mesmo! Beijo, querida, beijo

Sandra Botelho disse...

Que delicia heim...
Como são bons esses momentos.
Bjos achocolatados doce Maria.

*Simone* disse...

Oi querida amiga Amapola...
Lindo esse texto por você escrito... adorei!
Um ótima noite!

Bjos,

*Simone*

Ceci disse...

Sempre gosto de ler teus escritos, são como uma narrativa que me acompanha... e venho atualizar. Obrigada e meu abraço

εїз ViViAn ★ Sbrussi /(",)\ disse...

(¯´•.(¯´•.(¯´•.(¯´•..•´¯).•´¯).•´¯).•´¯)
¸.•´¯´•.¸¸.•´¯´*•*´¯´•.¸¸.•´¯´•..

oieeee!!!

passando rapidinho para ver as novidades!
e desejar uma ótima semaninha!

=D

●๋• ●๋•
●๋•☆ViViAn\\(^_^)// Sbrussi
●๋• ●๋•

Sandra Botelho disse...

Sua memorias são deliciosas de ler...
Bjos achocolatados

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

É TANTA CRUZ PESADA...

É TANTA CRUZ PESADA...

Em Março de 1983, eu trabalhava numa empresa de autopeças, quando foi admitida uma moça para trabalhar na mesma sala que eu.

Ela era dinâmica e muito inteligente. Havia concluído o curso normal, e seu sonho era estudar pedagogia. Era coisa de vocação mesmo...

Eu da minha vez, mãe solteira e muito coruja, falava muito sobre o meu filho, e do aniversário de um ano dele, que por ser em Junho, já se aproximava.

Ela era alta, tinha uns vinte anos, e usava sempre uma cinta muito apertada, que parecia deixa-la desconfortável e muito nervosa. Mantinha um regime, mas o resultado não fazia jus ao sacrifício. Seu rosto era bonito, e seus cabelos eram curtos e ondulados. Não era gorda... gorda, mas...

Só depois de um mês, foi que ela contou que também era mãe solteira, e seu filho tinha seis meses de idade.

Relatou a seguinte história:

Era noiva de um rapaz por quem era muito apaixonada. Tinha o plano de se casar, só depois que tivesse passado no vestibular. Porém, ao se engravidar antes disso, eles marcaram a data para quando ela ainda estivesse no terceiro mês de gestação, para que o vestido de noiva ainda lhe caísse bem.

A família dele morava no interior de Minas. Num fim de semana os dois viajaram pra lá, levando convites para os amigos e parentes.

Logo que desembarcaram na rodoviária, ele avistou seu primo na porta do bar da esquina, brigando com outro rapaz. Eles aceleraram os passos. O noivo dela foi apartar a briga, quando levou um tiro e já caiu morto.

Filha única, ela sempre foi muito mimada pelos seus pais pobres e trabalhadores, que faziam de tudo para que nada lhe faltasse.

A sua vida virou um pesadelo.

Ela disse que quando a criança nasceu, o bercinho ficava ao lado da sua cama. Algumas noites depois, bastava o filho adormecer e ela se acomodar, barulhos repetidos aconteciam na madeira do berço. Logo em seguida, ela sentia o cheiro do seu amado. Sentia a presença dele ali...

Ao contar para a família, muitos a levaram em diversos templos, para que aquela manifestação parasse. Nada mudou!

Apesar dela não ter medo, aquilo tudo a deixava agoniada.

Numa noite, depois do barulho e do cheiro, ela viu o seu noivo nitidamente em pé ao lado do berço, contemplando a criança. Sentiu medo, calafrios, arrepios! Tentou gritar, mas a voz não saia. Não conseguia se mexer. Parecia congelada.

A única coisa que conseguiu foi fechar os olhos. Em pensamento ela suplicou que Deus o levasse dali. Ela são saberia e não queria conviver com aquilo.

Depois de muitos minutos ela abriu os olhos, e ele não estava mais lá. Rapidamente ela se levantou, carregou seu filho, e levou-o para o quarto dos avós. Os dois, abismados com o acontecido, levaram até o berço para o quarto deles. Desde então, ela não teve a coragem de dormir no mesmo quarto do bebê.

No quarto dos avós, nenhuma manifestação foi observada.

Vez ou outra ela ouvia barulhos indecifráveis no seu próprio quarto, mas deixava pra lá, porque comparados ao fato daquela aparição, isso virou “café pequeno”.

Naquela empresa ela trabalhou durante poucos meses, e depois demitiu-se.

Nunca mais eu soube dela. Porém há uns dez anos atrás, eu assistia o jornal local da Globo, e o assunto era “obesidade mórbida”. Mostraram um guindaste quebrando a parede de uma casa. Em seguida entrevistaram uma moça sentada no chão, cujo peso era 280 kg, porque ela havia conseguido através do SUS, uma operação de redução do estômago.

Era ela. Apesar da gordura, seu rosto permanecia igual. Sem nenhum constrangimento ela respondia todas as perguntas, mostrando-se alegre por ter conseguido tal assistência.

Fiquei surpresa, e li o nome dela logo abaixo da sua imagem.

Aí então, o guindaste tirou-a do chão, levando-a para o hospital.

(27/12/2010)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

PARECE MENTIRA

PARECE MENTIRA

No único pensionato confortável que morei, tive uma colega de quarto muito engraçada. Seu nome parecia japonês, embora não fosse descendente.

Suaminy tinha dezenove anos, era muito alta e magra. Era despojada e alegre. Extrovertida mesmo. Tudo que falava, era com um largo sorriso no rosto, mesmo quando o assunto era sério.

Quem a levou para esse pensionato foi o seu pai, porque a mãe dela não a suportava. Brigava constantemente com ela. Julgava-a leviana, porque ela gostava de frequentar barzinhos, nos fins de semana. Ela não trabalhava fora, e sua família era de classe média.

O pai só tomou essa iniciativa, porque numa noite quando ela chegou da rua, a mãe quis bater nela, dizendo que, com certeza, ela já teria perdido a virgindade. Disse que na manhã seguinte a levaria numa ginecologista, e provaria isso para todos.

No outro dia, antes que ela se levantasse, o pai da Suaminy levou-a para esse pensionato, protegendo-a.

Ele era equilibrado, e grande amigo de sua filha.

Depois de contar sua história, ela disse que realmente era virgem, e só deixaria de ser, quando amasse alguém. Um ex-namorado que morava perto da casa dela, continuava apaixonado, enquanto ela tinha o coração livre e solto.

Como havia saído apressadamente, ela não teve tempo de pegar as suas roupas. As nossas não lhe serviam, porque ela era muito alta. Inclusive muito bonita, também.

Num sábado à tarde, ela foi na companhia do pai, buscar sua bagagem. Chegando lá, não encontrou a mãe, porque ela tinha ido visitar um parente, e só voltaria dois dias depois.

Suaminy aproveitou para dormir lá nessa noite. Seu ex , ao vê-la chegar, ficou sem sossego. Por volta das 20hs, ele bateu na porta, pedindo para reatarem o namoro.

Ficaram conversando em pé, na varanda da casa. Cheio de saudades, ele não poupou carícias. Então, houve muitos abraços e beijos.

No dia seguinte ela chegou no pensionato, quando eu me preparava para ir para o trabalho.

Com seu jeito brincalhão, ela me disse assim:___Ontem, eu e meu ex nos abraçamos tanto, que, quando entrei em casa, minha perna estava toda molhada. Eu não senti nada diferente...Mas então, quer dizer que eu gozei?

Eu comecei a rir, e disse que não sabia. Ela contou sobre o amasso, sorrindo contente ao se sentir mais adulta, e se deitou na cama. Mais uma vez ela reafirmou: __Eu não senti nada de nada... Também, eu nunca fui apaixonada por ele...

Os dias foram se passando e ela não voltou na sua casa, e nem se encontrou com esse rapaz novamente.

Ela comentou que estava tendo umas tonteiras. Telefonou para seu pai, que a levou ao médico. Foi confirmado que ela estava grávida de um mês.

Grávida, e virgem. Para ela, aquilo tudo parecia uma festa. A menina ria muito, ao dizer que no hospital, ela tinha virado a atração de todos. Ninguém nunca tinha visto algo parecido.

Ela não perdeu a oportunidade e pediu ao médico um atestado da virgindade. Disse que imaginava a cara da sua mãe, depois dessa prova.

O médico disse que seu parto seria cesária, para lhe preservar.

Seu pai a acompanhava nas consultas do pré-natal, e alugou um pequeno apartamento para que ela passasse a gravidez num lugar mais tranquilo. Ele estava sempre presente.

Algumas vezes eu fui visita-la, e ela parecia outra pessoa. A paz no seu jeito de agir era muito diferente daquela menina inquieta e que falava demais.

Ela me apresentou as suas plantinhas, pelo nome que havia colocado nelas. Todas tinham nome de gente. Ao rega-las, ela conversava com cada uma, de um jeito angelical e emocionante.

Numa das vezes que fui lá, ela me contou muito feliz, que ao aproximar a data do nascimento da criança, ela voltaria para casa. A sua mãe havia se rendido ao fato, e foi iniciativa dela, que todos deveriam morar juntos outra vez.

O pai da criança queria se casar, mas ela recusou.

(22/12/2010)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

SABER O PORQUÊ, PRA QUÊ?


SABER O PORQUÊ, PRA QUÊ?

Faltava um dia para o dia dos namorados. Eu tinha dezessete anos, e havíamos nos mudado para aquele bairro, recentemente. Também era recente, a nossa vinda para Belo Horizonte.

Ao anoitecer, eu e minha irmã saímos pelas redondezas, para conhecermos o lugar. Na volta, quase chegando ao nosso portão, um lindo rapaz aproximou-se.

Ele era muito alto, magro, e usava calça social preta, e uma blusa amarela “Dr. Givago”. Meu coração bateu mais forte. Ele disse que morava na outra rua. Com muita educação e sem tirar os olhos de mim, perguntou se podia namorar comigo. Comentou também, que não ficaríamos sós, no dia dos namorados.

Eu disse que sim; e marcamos para o dia seguinte, nos encontrarmos naquele portão. Entrei em casa e falei para a minha mãe.

Cuidei dos cabelos, lavei meu rosto com bicarbonato, coloquei uma roupa bonita que havíamos ganhado da amiga de infância do meu pai. Ela morara no Rio de Janeiro, e sabendo da nossa necessidade, enviou através do correio, roupas usadas e bonitas, que salvaram aquele momento em que saíamos muito, à procura de emprego.

Aquele belo rapaz elegante chegou no horário marcado. Depois de beijar a minha mão, nós nos sentamos ali, ao lado. Ele estava perfumado... Com alegria no rosto, ele me deu um presente. Era uma pequena réplica de um poste colonial no formato de “T”, com duas luminárias, uma de cada lado, e dentro delas havia um perfume gostoso. O líquido amarelado fazia parecer que elas estavam acesas.

Nossa... eu merecia aquilo tudo?

Eu nunca havia namorado antes. Tinha vergonha de ficar de mãos dadas. Eu não sabia nada de nada. Era inocente como uma criança.

Num sábado, depois dele se despedir de mim, entrei em casa, quando minha mãe disse que não queria saber mais daquele namoro. Ele tinha vinte e um anos, e minha mãe disse que ele era malandro, porque não tinha um emprego.

Eu chorava enquanto ela ditava as suas ordens. À mim, restava apenas obedecer ou obedecer. Ela falou que quando eu fizesse dezoito anos, ela permitiria.

Na noite seguinte quando ele chegou, eu lhe dei o recado. Ele se despediu de mim, e foi embora com o semblante sério e triste.

Eu tinha tanto medo da minha mãe, que daria a vida para não enfrenta-la. Ela tinha a mania de dizer, que quando eu fizesse dezoito anos, eu poderia sair de casa, porque eu já seria “de maior”. Eu sempre ouvia isso sem motivo algum, e sem entender nada.

O tempo foi se passando, sem que eu visse o meu amado. Porém, ele fez várias serenatas pra mim, no meio das madrugadas.

Logo que fiz dezoito anos, ele voltou lá e então reiniciamos o nosso namoro. Havia dois meses que eu tinha sido admitida na Telemig. Quando minha mãe viu a minha carteira assinada, disse que daquele dia em diante, o aluguel de onde morávamos, era responsabilidade só minha. Concordei e fiquei com essa obrigação.

Ela brigava comigo todos os dias. Quando eu chegava do trabalho ela ficava nervosa, e começava a me ofender, mostrando raiva de precisar do meu dinheiro para aquele aluguel.

Namorei poucos meses, mas ela proibiu novamente, dizendo que ele tinha um irmão que não valia de nada, etc... etc.

Eu que sempre fui obediente, terminei o namoro com Ronaldo, e minha terapia era o trabalho. Mesmo assim, ela promovia brigas intermináveis, colocando minhas irmãs mais velhas também contra mim, parecendo uma disputa política. As três juntas sempre me tocavam de casa. A frase da minha mãe: “A porta da rua é a serventia da casa”, martelava na minha cabeça, enquanto eu tentava encontrar uma explicação para tudo isso. A única conclusão que cheguei foi a de que eu havia nascido no ninho errado.

Durante esse tempo eu tinha um namorico aqui, outro ali, o que me fazia lembrar dele ainda mais. Ronaldo... Ronaldo!!!

Eu não o via. Ele era o filho caçula de uma família numerosa. Morava sozinho com a mãe, porque o pai já havia morrido, e cada irmão já tinha sua própria família.

Quando sua mãe morreu, ele se mudou dali, mas eu nunca soube de nenhuma notícia, porque não perguntava pra ninguém. Afinal, obediência é obediência... Perto ou longe da mamãe.

Depois que saí da Telemig e fui trabalhar numa contabilidade, eu fazia hora extra até altas horas, e ainda levava serviço pra casa. Livros para serem lançados até a última página, usando caneta tinteiro.

Num dia, eu cheguei um pouco mais cedo, e minha mãe aproximou-se de mim, meio sem graça, e disse assim: __Eu pensei bastante, e se você quiser voltar a namorar o Ronaldo, agora eu deixo.

Eu não sabia o que dizer, porque há vários anos, eu não sabia nada sobre ele, apesar dele morar no meu coração.

O engraçado disso tudo, é que; alguns dias depois, eu resolvi almoçar em casa, o que não era comum. Eu vivia de dieta, e ficava o dia todo dentro do escritório. Mas nessa quinta feira eu fui em casa às 11:hs. Por volta do meio dia, voltando para o trabalho, eu entrei no lotação e fiquei em pé. Alguém tocou o meu ombro. Ao virar, dei de cara com o Ronaldo. Ele, todo sorridente, perguntou como eu estava, e deu-me um papel com o número do telefone do seu serviço.

Ele estava trabalhando na Prefeitura de BH. Para minha alegria, ele disse que eu o esperasse no portão, sábado às 8 da noite, como nos velhos tempos.

Eu cheguei no escritório e contei para minhas colegas. Não me continha de tanta felicidade. Já que íamos nos encontrar dois dias depois, não era preciso eu telefonar para o serviço dele, incomodando-o no seu local de trabalho.

À noite, eu contei para a minha mãe. Ela estava meio sonsa, e nem sei o que ela falou, porque foi apenas um resmungo.

Chegou o bendito sábado. Eu passei o dia me cuidando, para ficar bonita na hora que ele chegasse. O dia pareceu-me tão longo...

Anoiteceu. Às oito horas eu fui para o portão. Fiquei ali, olhando de um lado para o outro, porque não sabia de qual lado ele viria.

O tempo foi passando e nada... Eu fui ficando agoniada, e senti um aperto no peito. Já eram nove horas. Entrei em casa chorando um choro que era maior que a minha garganta. Chorei horas e horas...

Eu teria que esperar a segunda-feira, para telefonar para o trabalho dele. Meu domingo foi um pesadelo.

Na segunda-feira, cheguei apressadamente na contabilidade, e enquanto me sentava, disquei o número que ele me deu.

Do outro lado, uma voz masculina perguntou com quem eu queria falar. Eu respondi: Com o Ronaldo...

Então ele disse assim: ___O Ronaldo não está, porque ele se casou no sábado às oito horas. Inclusive eu fui o padrinho dele. Daqui a dez dias, ele estará de volta.

Eu larguei o aparelho e debrucei-me na mesa. Fiquei observando o telefone gangorrar no seu fio, quase tocando o chão. O escritório era no 19º andar, e eu ouvia as buzinas lá embaixo, com um barulho diferente...

Aquele momento foi como um divisor de águas. Existiu uma Maria antes desse telefonema, e outra Maria depois. Apesar da minha essência continuar a mesma, naquele momento eu perdi mais uma vez, a minha fé.

Depois desse silêncio, eu comecei a chorar e corri para o banheiro. As minhas colegas foram atrás de mim, cheias de solidariedade, mas a dor tão doída teve moradia no meu PEITO, durante quase uma década.

17/12/2010






















17/12/2010