
SABER O PORQUÊ, PRA QUÊ?
Faltava um dia para o dia dos namorados. Eu tinha dezessete anos, e havíamos nos mudado para aquele bairro, recentemente. Também era recente, a nossa vinda para Belo Horizonte.
Ao anoitecer, eu e minha irmã saímos pelas redondezas, para conhecermos o lugar. Na volta, quase chegando ao nosso portão, um lindo rapaz aproximou-se.
Ele era muito alto, magro, e usava calça social preta, e uma blusa amarela “Dr. Givago”. Meu coração bateu mais forte. Ele disse que morava na outra rua. Com muita educação e sem tirar os olhos de mim, perguntou se podia namorar comigo. Comentou também, que não ficaríamos sós, no dia dos namorados.
Eu disse que sim; e marcamos para o dia seguinte, nos encontrarmos naquele portão. Entrei em casa e falei para a minha mãe.
Cuidei dos cabelos, lavei meu rosto com bicarbonato, coloquei uma roupa bonita que havíamos ganhado da amiga de infância do meu pai. Ela morara no Rio de Janeiro, e sabendo da nossa necessidade, enviou através do correio, roupas usadas e bonitas, que salvaram aquele momento em que saíamos muito, à procura de emprego.
Aquele belo rapaz elegante chegou no horário marcado. Depois de beijar a minha mão, nós nos sentamos ali, ao lado. Ele estava perfumado... Com alegria no rosto, ele me deu um presente. Era uma pequena réplica de um poste colonial no formato de “T”, com duas luminárias, uma de cada lado, e dentro delas havia um perfume gostoso. O líquido amarelado fazia parecer que elas estavam acesas.
Nossa... eu merecia aquilo tudo?
Eu nunca havia namorado antes. Tinha vergonha de ficar de mãos dadas. Eu não sabia nada de nada. Era inocente como uma criança.
Num sábado, depois dele se despedir de mim, entrei em casa, quando minha mãe disse que não queria saber mais daquele namoro. Ele tinha vinte e um anos, e minha mãe disse que ele era malandro, porque não tinha um emprego.
Eu chorava enquanto ela ditava as suas ordens. À mim, restava apenas obedecer ou obedecer. Ela falou que quando eu fizesse dezoito anos, ela permitiria.
Na noite seguinte quando ele chegou, eu lhe dei o recado. Ele se despediu de mim, e foi embora com o semblante sério e triste.
Eu tinha tanto medo da minha mãe, que daria a vida para não enfrenta-la. Ela tinha a mania de dizer, que quando eu fizesse dezoito anos, eu poderia sair de casa, porque eu já seria “de maior”. Eu sempre ouvia isso sem motivo algum, e sem entender nada.
O tempo foi se passando, sem que eu visse o meu amado. Porém, ele fez várias serenatas pra mim, no meio das madrugadas.
Logo que fiz dezoito anos, ele voltou lá e então reiniciamos o nosso namoro. Havia dois meses que eu tinha sido admitida na Telemig. Quando minha mãe viu a minha carteira assinada, disse que daquele dia em diante, o aluguel de onde morávamos, era responsabilidade só minha. Concordei e fiquei com essa obrigação.
Ela brigava comigo todos os dias. Quando eu chegava do trabalho ela ficava nervosa, e começava a me ofender, mostrando raiva de precisar do meu dinheiro para aquele aluguel.
Namorei poucos meses, mas ela proibiu novamente, dizendo que ele tinha um irmão que não valia de nada, etc... etc.
Eu que sempre fui obediente, terminei o namoro com Ronaldo, e minha terapia era o trabalho. Mesmo assim, ela promovia brigas intermináveis, colocando minhas irmãs mais velhas também contra mim, parecendo uma disputa política. As três juntas sempre me tocavam de casa. A frase da minha mãe: “A porta da rua é a serventia da casa”, martelava na minha cabeça, enquanto eu tentava encontrar uma explicação para tudo isso. A única conclusão que cheguei foi a de que eu havia nascido no ninho errado.
Durante esse tempo eu tinha um namorico aqui, outro ali, o que me fazia lembrar dele ainda mais. Ronaldo... Ronaldo!!!
Eu não o via. Ele era o filho caçula de uma família numerosa. Morava sozinho com a mãe, porque o pai já havia morrido, e cada irmão já tinha sua própria família.
Quando sua mãe morreu, ele se mudou dali, mas eu nunca soube de nenhuma notícia, porque não perguntava pra ninguém. Afinal, obediência é obediência... Perto ou longe da mamãe.
Depois que saí da Telemig e fui trabalhar numa contabilidade, eu fazia hora extra até altas horas, e ainda levava serviço pra casa. Livros para serem lançados até a última página, usando caneta tinteiro.
Num dia, eu cheguei um pouco mais cedo, e minha mãe aproximou-se de mim, meio sem graça, e disse assim: __Eu pensei bastante, e se você quiser voltar a namorar o Ronaldo, agora eu deixo.
Eu não sabia o que dizer, porque há vários anos, eu não sabia nada sobre ele, apesar dele morar no meu coração.
O engraçado disso tudo, é que; alguns dias depois, eu resolvi almoçar em casa, o que não era comum. Eu vivia de dieta, e ficava o dia todo dentro do escritório. Mas nessa quinta feira eu fui em casa às 11:hs. Por volta do meio dia, voltando para o trabalho, eu entrei no lotação e fiquei em pé. Alguém tocou o meu ombro. Ao virar, dei de cara com o Ronaldo. Ele, todo sorridente, perguntou como eu estava, e deu-me um papel com o número do telefone do seu serviço.
Ele estava trabalhando na Prefeitura de BH. Para minha alegria, ele disse que eu o esperasse no portão, sábado às 8 da noite, como nos velhos tempos.
Eu cheguei no escritório e contei para minhas colegas. Não me continha de tanta felicidade. Já que íamos nos encontrar dois dias depois, não era preciso eu telefonar para o serviço dele, incomodando-o no seu local de trabalho.
À noite, eu contei para a minha mãe. Ela estava meio sonsa, e nem sei o que ela falou, porque foi apenas um resmungo.
Chegou o bendito sábado. Eu passei o dia me cuidando, para ficar bonita na hora que ele chegasse. O dia pareceu-me tão longo...
Anoiteceu. Às oito horas eu fui para o portão. Fiquei ali, olhando de um lado para o outro, porque não sabia de qual lado ele viria.
O tempo foi passando e nada... Eu fui ficando agoniada, e senti um aperto no peito. Já eram nove horas. Entrei em casa chorando um choro que era maior que a minha garganta. Chorei horas e horas...
Eu teria que esperar a segunda-feira, para telefonar para o trabalho dele. Meu domingo foi um pesadelo.
Na segunda-feira, cheguei apressadamente na contabilidade, e enquanto me sentava, disquei o número que ele me deu.
Do outro lado, uma voz masculina perguntou com quem eu queria falar. Eu respondi: Com o Ronaldo...
Então ele disse assim: ___O Ronaldo não está, porque ele se casou no sábado às oito horas. Inclusive eu fui o padrinho dele. Daqui a dez dias, ele estará de volta.
Eu larguei o aparelho e debrucei-me na mesa. Fiquei observando o telefone gangorrar no seu fio, quase tocando o chão. O escritório era no 19º andar, e eu ouvia as buzinas lá embaixo, com um barulho diferente...
Aquele momento foi como um divisor de águas. Existiu uma Maria antes desse telefonema, e outra Maria depois. Apesar da minha essência continuar a mesma, naquele momento eu perdi mais uma vez, a minha fé.
Depois desse silêncio, eu comecei a chorar e corri para o banheiro. As minhas colegas foram atrás de mim, cheias de solidariedade, mas a dor tão doída teve moradia no meu PEITO, durante quase uma década.
17/12/2010
17/12/2010
7 COMENTÁRIOS:
Não consegui entender por que vc minha menina querida desapareceu dos meus blogs.
Continuo te achando maravilhosa....
Beijos do Zé Carlos
Amapola, gostosissimo post... adorei a leitura rechada de ternura. Lindo mesmo! Beijo, querida, beijo
Que delicia heim...
Como são bons esses momentos.
Bjos achocolatados doce Maria.
Oi querida amiga Amapola...
Lindo esse texto por você escrito... adorei!
Um ótima noite!
Bjos,
*Simone*
Sempre gosto de ler teus escritos, são como uma narrativa que me acompanha... e venho atualizar. Obrigada e meu abraço
(¯´•.(¯´•.(¯´•.(¯´•..•´¯).•´¯).•´¯).•´¯)
¸.•´¯´•.¸¸.•´¯´*•*´¯´•.¸¸.•´¯´•..
oieeee!!!
passando rapidinho para ver as novidades!
e desejar uma ótima semaninha!
=D
●๋• ●๋•
●๋•☆ViViAn\\(^_^)// Sbrussi
●๋• ●๋•
Sua memorias são deliciosas de ler...
Bjos achocolatados
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