sexta-feira, 23 de setembro de 2011

IGUAL TRAGÉDIA GREGA

IGUAL TRAGÉDIA GREGA


Uma senhora que mora nesse bairro, foi tão acolhedora com um rapazinho que não tinha família, que ele até passou a chamá-la de mãe. Depois que ele a conheceu, a sua vida teve mais sentido, porque podia contar também, com a amizade dos filhos dela.

Ele era trabalhador, morava sozinho, e se sustentava. Sua vida foi marcada pelo abandono, e isso o tornou muito carente e complexado.

Apesar da vontade de vencer na vida, logo cedo ele se acostumou com as drogas. Mesmo assim, era responsável no trabalho.

Aos vinte anos, conheceu uma moça por quem se apaixonou perdidamente. Levou-a para morar com ele. Essa companheira era muito exigente e materialista. Para agradá-la, ele fez reformas na casa e trocou toda a mobília, do jeitinho que ela queria. Por ela, ele se endividava até de olhos fechados.

Depois de um relacionamento estável, ela o abandonou. Ele ficou enlouquecido e começou faltando ao trabalho. A dona Iza tentava fazê-lo enxergar que o melhor seria aceitar a separação. Apesar dele valorizar os conselhos dela, nada adiantou.

Procurava-a no emprego e insistia numa reconciliação, fazendo diversas ameaças.

Num dia ele comentou que daria um grande susto nela; e talvez assim, tudo voltasse ao normal.

Arranjou um revólver e ficou na espreita.

Logo que a viu, fez um disparo. Em seguida, saiu correndo sem olhar para trás. Escondeu-se, confiante de que depois dessa intimidação, ela mudaria de ideia.

Ao amanhecer, procurou um telefone público. Alguém parou ali perto, trazendo um jornal na mão, e comentando sobre um crime. Ele pediu pra ver, e na primeira página estava o retrato dela, e a notícia dessa morte, cujo suspeito seria ele.

Ele não havia mirado para acertar. Ele a queria para si...

Ligou para a mãe dela, e chorando feito louco, pediu-lhe perdão. Tirou o revólver da cintura e deu um tiro na cabeça, cujo barulho ela ouviu do outro lado.

Isso aconteceu há uns três anos.

(11/09/2011)

sábado, 17 de setembro de 2011

ENQUANTO O SEMÁFORO NÃO MUDA...

ENQUANTO O SEMÁFORO NÃO MUDA...

Naquele tempo, a "Lambada" fazia grande sucesso. Num dia eu aguardava o sinal abrir, para atravessar a Av. Afonso Pena, em Belo Horizonte.
Ao meu lado, uma jovem senhora segurava a mão de uma criança de uns quatro anos. A menina soltou-se e começou a dançar.
Ela girava a cabeça e rodopiava a cintura, enquanto sua saia rodada e curtinha, movia-se como ondas revoltas e mágicas!
Foi um show que durou poucos minutos, mas deslumbrou muita gente; inclusive a sua mãe, que sorria orgulhosa daquele lindo momento.
Ah... Se eu portasse uma câmera!!

(10/09/2011)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

FRUTO DO SUOR

FRUTO DO SUOR

O Zé da Floresta é famoso
Na rua Wenceslau Brás
Aqui ele é dono de tudo
Porque foi valente demais

Enquanto os outros divertem
Trabalha de sol a sol

Muita gente o inveja
Mas não quer imitar
Pois só quer colher o fruto
Que jamais ousou plantar

Largue o Zé com a sua vida
Que dela ele sabe cuidar
Pois veio lá da Espanha
Tentando seu pão ganhar

Soube dar valor à terra
E dela o sustento tirou
Se privou de qualquer luxo
Pois somente ele sabia
O suor que exalou

Quem quiser falar do Zé
Não se esqueça de lembrar
Ele é aquele imigrante
Que soube bem trabalhar

Deixando sua terra lá longe
História ele tem pra contar
Caso alguém o queira ouvir
Muito vai se emocionar

Então deixe o Zé sossegado
Que ele não é o culpado
De ter gente aqui do lado
Que não tem onde morar

11/01/2006

Na década de cinquenta, éramos inquilinos do Sr. José, como muitos moradores daquela rua. Toda vez que ele queria aumentar o aluguel, os adultos diziam que ele era estrangeiro, e que veio se enriquecer aqui no Brasil.

terça-feira, 17 de maio de 2011

UMA TURISTA DESLUMBRADA

UMA TURISTA DESLUMBRADA

Nessa vida me sinto turista
Não há sequer um momento
Nem mesmo uma leve visão
Que não fiquem bem marcados
Dentro do meu coração

Minha paixão pela música
Parece até fixação
Eu a ouço nos ouvidos
Mas nota por nota circula
Nas veias de todo meu corpo
Fazendo pulsar meu coração

Pela flores me deslumbro
Chegam a me hipnotizar
Se alguém se encontra por perto
Sinto-me até constrangida
Por não saber dissimular

No amor fiquei a estagiar
Na fidelidade do homem
Não consegui confiar

Sempre tive a impressão
Que cartas ele tinha na manga
Pra no fim ganhar sozinho
Como nos jogos de azar

Dessa família que descendo
Injustiça doída e contínua
A maioria enxergou em mim
Uma estranha no ninho

Que há muito aqui se instalou
E que mais tarde não soube
Qual era o momento exato
De voltar por onde andou

Acontece que
Eu perdi a noção do tempo
Minha trilha dos meus olhos escapou
A beleza contida nesse planeta
Por meio século me aprisionou

(06/03/2007)

sábado, 14 de maio de 2011

FALTA DE DIVERSÃO

FALTA DE DIVERSÃO

O PADRE REZAVA A MISSA
MAS DEPOIS QUE TERMINAVA
JUNTAVAM AS MOÇAS DA ELITE
DA SUA BARRA NÃO LARGAVAM

FICAVA UM MONTE DE GENTE
NO CENTRO O COITADO DO PADRE
AO REDOR AS MOÇAS BONITAS
QUE NÃO O LARGAVAM PRA NADA

TODO MUNDO REPARAVA
MAS ELAS NEM SE IMPORTAVAM
QUEM SABE ERAM MUITO INOCENTES
NÃO TINHAM NOÇÃO DE NADA

ESQUECENDO O CELIBATO
SUA BARRA NÃO LARGAVAM

ELE TINHA VOCAÇÃO
PARA A RELIGIÃO QUE ESCOLHEU
SOFREU MUITA TENTAÇÃO
PARECE QUE TODAS VENCEU

NUNCA LARGOU A BATINA
E CONTINUOU SERVINDO À DEUS


12/01/2006

sexta-feira, 13 de maio de 2011

E AGORA, MARIA?

E AGORA, MARIA?

Há poucos anos, numa tarde eu fui na padaria aqui, da esquina.

É raro eu comprar lá, porque o pão não tem qualidade.

Enquanto o rapaz me atendia, olhei para a porta, e vi uma menina de uns cinco anos, franzina, encostada no canto, com um pé no chão e o outro, apoiando-se na parede. Seus pés descalços chamaram a minha atenção, porque hoje em dia, não é comum ver alguém sem algo pra calçar.

Olhei para o rosto dela. Ela me olhava fixamente, com um olhar sereno, parecendo me admirar. De que, não sei.

Naquele momento eu tive vontade de agradá-la comprando-lhe alguma guloseima, mas uma pressa que não sei pra quê, me fez sair de lá sem fazer nada. Eu nunca a tinha visto. Ao sair, sorri pra ela, mas nem tive tempo de ver se ela correspondeu.

Não a esquecia, e pensava assim: Amanhã eu vou lá, procuro saber quem é, e faço um agrado. Mas não fiz nada.

Passaram-se três dias. Era sábado, por volta das duas horas da tarde, quando, da cozinha, ouvi um grande barulho e uns gritos. Minhas irmãs e minha mãe estavam no terreiro, e também ficaram apavoradas.

Fomos para a varanda que dá para a rua, para sabermos. Nesse momento, o dono da padaria passou aqui em frente, dirigindo devagarinho.

No banco de trás, a esposa dele, e uma menina deitada, parecendo morta.

Pensei assim: Não é possível... É ela!!

Chorei muito, muito, e contei o episódio para todos.

Fiquei ansiosa para saber mais. Fui na rua, e os vizinhos falaram que o pai dela estava fazendo um serviço em cima da laje nos fundos da padaria. Ela subiu lá, e caiu.

Nesse dia eu não soube mais nada. Na manhã seguinte eu fui na padaria e a dona estava lá. Perguntei sobre. De um jeito muito frio, ela disse que a levaram para o Hospital Regional do centro, e que ela passava bem. Falou para eu não me preocupar, porque aquela gente parecia cigano, e que tinha poucos dias que haviam chegado ali.

Ela se expressava como se se tratasse de um lixo.

Eu disse que iria visitá-la, e ela respondeu que eu não devia, porque ela estava bem e teria alta a qualquer momento.

Apesar de sua atitude estranha, eu não fui no hospital, acreditando que a menina voltaria. Eram inquilinos deles.

Voltei lá mais duas vezes, e ela me disse que eles haviam se mudado para outro estado, acho que; Tocantins, e que eu não me preocupasse com nada . Vi que ela não queria mais falar no assunto, e eu a importunava.

Voltei pra casa sentindo-me derrotada por mim mesma, e detestando o meu jeito de ser: “Devagar, quase parando”. Não sei o que houve com a menina. Não sei se ela morreu.

Perdi essa chance.

Nenhum momento se repete. Mas a consciência pesada, dura a vida inteira.

E AGORA, MARIA?

(10/04/2011)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

LABUTA


LABUTA

Também na Wenceslau
A dona Luizinha morava
Com muita dificuldade
Uma vida difícil levava

Apressada ela saía
No meio da madrugada
Pra lenha buscar no mato
E em casa não faltar nada

Ao chegar fazia o almoço
Para aqueles quatro filhos
Que há muito a esperavam

À tarde pra beira do rio
Outra vez pra labuta ela ia

Na cabeça carregava
Carumbé, enxada e peneira
Com o corpo banhado em suor
Garimpava a tarde inteira

13/01/2006