
E AGORA, MARIA?
Há poucos anos, numa tarde eu fui na padaria aqui, da esquina.
É raro eu comprar lá, porque o pão não tem qualidade.
Enquanto o rapaz me atendia, olhei para a porta, e vi uma menina de uns cinco anos, franzina, encostada no canto, com um pé no chão e o outro, apoiando-se na parede. Seus pés descalços chamaram a minha atenção, porque hoje em dia, não é comum ver alguém sem algo pra calçar.
Olhei para o rosto dela. Ela me olhava fixamente, com um olhar sereno, parecendo me admirar. De que, não sei.
Naquele momento eu tive vontade de agradá-la comprando-lhe alguma guloseima, mas uma pressa que não sei pra quê, me fez sair de lá sem fazer nada. Eu nunca a tinha visto. Ao sair, sorri pra ela, mas nem tive tempo de ver se ela correspondeu.
Não a esquecia, e pensava assim: Amanhã eu vou lá, procuro saber quem é, e faço um agrado. Mas não fiz nada.
Passaram-se três dias. Era sábado, por volta das duas horas da tarde, quando, da cozinha, ouvi um grande barulho e uns gritos. Minhas irmãs e minha mãe estavam no terreiro, e também ficaram apavoradas.
Fomos para a varanda que dá para a rua, para sabermos. Nesse momento, o dono da padaria passou aqui em frente, dirigindo devagarinho.
No banco de trás, a esposa dele, e uma menina deitada, parecendo morta.
Pensei assim: Não é possível... É ela!!
Chorei muito, muito, e contei o episódio para todos.
Fiquei ansiosa para saber mais. Fui na rua, e os vizinhos falaram que o pai dela estava fazendo um serviço em cima da laje nos fundos da padaria. Ela subiu lá, e caiu.
Nesse dia eu não soube mais nada. Na manhã seguinte eu fui na padaria e a dona estava lá. Perguntei sobre. De um jeito muito frio, ela disse que a levaram para o Hospital Regional do centro, e que ela passava bem. Falou para eu não me preocupar, porque aquela gente parecia cigano, e que tinha poucos dias que haviam chegado ali.
Ela se expressava como se se tratasse de um lixo.
Eu disse que iria visitá-la, e ela respondeu que eu não devia, porque ela estava bem e teria alta a qualquer momento.
Apesar de sua atitude estranha, eu não fui no hospital, acreditando que a menina voltaria. Eram inquilinos deles.
Voltei lá mais duas vezes, e ela me disse que eles haviam se mudado para outro estado, acho que; Tocantins, e que eu não me preocupasse com nada . Vi que ela não queria mais falar no assunto, e eu a importunava.
Voltei pra casa sentindo-me derrotada por mim mesma, e detestando o meu jeito de ser: “Devagar, quase parando”. Não sei o que houve com a menina. Não sei se ela morreu.
Perdi essa chance.
Nenhum momento se repete. Mas a consciência pesada, dura a vida inteira.
E AGORA, MARIA?
(10/04/2011)




