sexta-feira, 13 de maio de 2011

E AGORA, MARIA?

E AGORA, MARIA?

Há poucos anos, numa tarde eu fui na padaria aqui, da esquina.

É raro eu comprar lá, porque o pão não tem qualidade.

Enquanto o rapaz me atendia, olhei para a porta, e vi uma menina de uns cinco anos, franzina, encostada no canto, com um pé no chão e o outro, apoiando-se na parede. Seus pés descalços chamaram a minha atenção, porque hoje em dia, não é comum ver alguém sem algo pra calçar.

Olhei para o rosto dela. Ela me olhava fixamente, com um olhar sereno, parecendo me admirar. De que, não sei.

Naquele momento eu tive vontade de agradá-la comprando-lhe alguma guloseima, mas uma pressa que não sei pra quê, me fez sair de lá sem fazer nada. Eu nunca a tinha visto. Ao sair, sorri pra ela, mas nem tive tempo de ver se ela correspondeu.

Não a esquecia, e pensava assim: Amanhã eu vou lá, procuro saber quem é, e faço um agrado. Mas não fiz nada.

Passaram-se três dias. Era sábado, por volta das duas horas da tarde, quando, da cozinha, ouvi um grande barulho e uns gritos. Minhas irmãs e minha mãe estavam no terreiro, e também ficaram apavoradas.

Fomos para a varanda que dá para a rua, para sabermos. Nesse momento, o dono da padaria passou aqui em frente, dirigindo devagarinho.

No banco de trás, a esposa dele, e uma menina deitada, parecendo morta.

Pensei assim: Não é possível... É ela!!

Chorei muito, muito, e contei o episódio para todos.

Fiquei ansiosa para saber mais. Fui na rua, e os vizinhos falaram que o pai dela estava fazendo um serviço em cima da laje nos fundos da padaria. Ela subiu lá, e caiu.

Nesse dia eu não soube mais nada. Na manhã seguinte eu fui na padaria e a dona estava lá. Perguntei sobre. De um jeito muito frio, ela disse que a levaram para o Hospital Regional do centro, e que ela passava bem. Falou para eu não me preocupar, porque aquela gente parecia cigano, e que tinha poucos dias que haviam chegado ali.

Ela se expressava como se se tratasse de um lixo.

Eu disse que iria visitá-la, e ela respondeu que eu não devia, porque ela estava bem e teria alta a qualquer momento.

Apesar de sua atitude estranha, eu não fui no hospital, acreditando que a menina voltaria. Eram inquilinos deles.

Voltei lá mais duas vezes, e ela me disse que eles haviam se mudado para outro estado, acho que; Tocantins, e que eu não me preocupasse com nada . Vi que ela não queria mais falar no assunto, e eu a importunava.

Voltei pra casa sentindo-me derrotada por mim mesma, e detestando o meu jeito de ser: “Devagar, quase parando”. Não sei o que houve com a menina. Não sei se ela morreu.

Perdi essa chance.

Nenhum momento se repete. Mas a consciência pesada, dura a vida inteira.

E AGORA, MARIA?

(10/04/2011)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

LABUTA


LABUTA

Também na Wenceslau
A dona Luizinha morava
Com muita dificuldade
Uma vida difícil levava

Apressada ela saía
No meio da madrugada
Pra lenha buscar no mato
E em casa não faltar nada

Ao chegar fazia o almoço
Para aqueles quatro filhos
Que há muito a esperavam

À tarde pra beira do rio
Outra vez pra labuta ela ia

Na cabeça carregava
Carumbé, enxada e peneira
Com o corpo banhado em suor
Garimpava a tarde inteira

13/01/2006

quinta-feira, 5 de maio de 2011

SEM PROCURAR RESPOSTAS, APENAS RELATO OS FATOS.

SEM PROCURAR RESPOSTAS, APENAS RELATO OS FATOS


Há muitos anos, meu patrão me transferiu para uma madeireira que ele estava terminando de instalar. Era na mesma cidade que moro. O local ainda não tinha nenhum conforto. Era um galpão abarrotado de madeira, com o chão cheio de serragem, que deixávamos ali, como um tapete, até que tudo fosse ajeitado.

Era só eu de mulher, mais doze rapazes que faziam o serviço pesado. Eu preferia ficar numa mesa ao ar livre, porque as laterais eram escuras. Perto da mesa tinha um pilar, que foi feito de poste.

Como ainda não havia rondante, meu patrão levou pra lá, um cachorro muito grande, e dócil. Enquanto eu trabalhava, ele ficava deitado perto de mim, encostado no pilar.

Na hora de fechar a loja, ele parecia já saber que era o momento dele entrar em ação, e aí se levantava e ficava andando por todos os cantos como um segurança bem treinado.

Esse patrão tinha muitas esquisitices, mas adorava animais. Tinha a mania de ir colhendo todos que via abandonados pelos caminhos, colocava-os dentro do seu carro, e depois levava-os para a sua fazenda.

Esse rondante, também veio das ruas.

Num dia ele estava meio amuado, e não quis comer. Meu colega examinou-o e disse que ele estava com bicho de pé. Falou que depois de alguns dias, ele mesmo iria tirar os bichos com uma agulha.

Numa manhã, o trabalho era muito, e não demos a atenção que ele merecia. O coitadinho ficou dormindo ali mesmo, sem se mexer.

Eu escrevia rapidamente os lançamentos contábeis, para enviar no dia seguinte para o patrão, que quase não ia lá. Ele tinha outras empresas.

Sem tirar os olhos do papel, eu notei alguma coisa diferente à minha esquerda. Ao olhar, vi um vulto quase preto, no formato do cachorro que dormia. Só que na altura da minha mesa, como uma levitação. Olhei para o chão, e o cachorro estava no mesmo lugar.

Abismada, eu fiquei observando as duas imagens, uma acima da outra, numa altura de um metro mais ou menos.

Nunca ouvi nada parecido, em se tratando de animais. Por fim, conclui que o cachorro deveria estar morrendo. Reparei que ele parecia nem mais respirar.

Nesse momento, eu gritei os rapazes, e liguei imediatamente para o meu patrão. A pata do bichinho estava tão inchada, que parecia uma bola.

Eu disparei a chorar, e falei com o Gilberto, que ele parecia estar nas últimas. Ele ficou apavorado, e ligou para o veterinário. Poucos minutos depois, os dois chegaram lá.

O médico aplicou-lhe duas injeções, e disse que se tratava de uma infecção muito grave. Ali mesmo, ele tirou muitos bichos com o bisturi. O cachorro foi medicado durante uns dez dias, e depois voltou pra lá, ocupando novamente o seu cargo de guardião responsável e dócil.

A sensação que senti foi inigualável, e jamais esquecerei esse episódio.

04/05/2011

segunda-feira, 2 de maio de 2011

MADRE TERESA DE CALCUTÁ

EPISÓDIO ACONTECIDO COM A MADRE TERESA


UM JORNALISTA ESTRANGEIRO, DEPOIS DE OBSERVAR A MADRE TERESA CUIDANDO DOS LEPROSOS, DISSE-LHE:

__MADRE... EU NÃO FARIA ISSO POR UM MILHÃO DE DÓLARES!

ELA LHE RESPONDEU:

__EU TAMBÉM NÃO...

terça-feira, 26 de abril de 2011

ESTAÇÃO

Estação da Central do Brasil (Mariana-MG)

ESTAÇÃO

Naquela estação
Quando o trem de ferro apitava
Pessoas ansiosas
O ente querido esperavam

Quando o trem de ferro parava
Mal abria as suas portas
Elas alegres já se abraçavam

Quando o trem apitava de novo
Seguindo em outra direção
Muita gente ficava triste
Ao despedir-se de outras
Acenando com as mãos

30/03/2006

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O ENVIADO

O ENVIADO


HÁ DOIS MIL ANOS ATRÁS
FICOU FAMOSO UM CIDADÃO
QUE COM JUSTIÇA E BONDADE
REBELOU-SE CONTRA A MALDADE

ENSINANDO SÓ O BEM
ESPALHOU POR TODA A PARTE
QUE RIQUEZA E PODER
É BOM QUE NÃO SE COMPARE
COM O VALOR DA CARIDADE

ERA HUMILDE COMO ELE SÓ
NÃO QUERIA OURO NEM GLAMOUR
PORÉM POUCOS O SEGUIRAM
ENXERGANDO O SEU VALOR

IRRITOU TODA A ELITE
AO SER CHAMADO DE REI
PORQUE A COROA DE OURO
SÓ ELA QUERIA TER

A MALDADE E AVAREZA
IMPEDIU QUE ENXERGASSEM
QUE A RIQUEZA E O PODER
QUE ELES QUERIAM MANTER

NÃO TINHA NADA A VER
COM AQUELA LUZ DIVINA
QUE EMANAVA DAQUELE SER

ELE PREGAVA VERDADES
INCOMODANDO A MUITOS
QUE NÃO QUERIAM DAR FIM
NAS SUAS INIQUIDADES

ALI NÃO VIRAM OUTRO JEITO
ENTÃO ASSIM COMBINARAM
EM VEZ DE MUDAREM A SI PRÓPRIOS
SERIA MAIS FÁCIL CONDENÁ-LO

MOSTRARAM QUE TINHAM PODER
USANDO ATÉ DE IRONIA
CRAVARAM NA SUA CABEÇA
UMA COROA DE ESPINHOS
POR ONDE SEU SANGUE ESCORRIA.

29/01/2006

segunda-feira, 11 de abril de 2011

OS CIGANOS

OS CIGANOS


No meio dos anos cinquenta
Uma grande caravana
Trazendo muitos ciganos
Se acampou em Mariana

Pessoas chamativas
Cheias de cores e brilhos
Todas muito bem vestidas
E no corpo das mulheres
Muitas saias compridas

Lenços bonitos de cetim
Cobriam suas cabeças
Deixando as mechas compridas
Deslizando sobre as sedas

Quando o vento aumentava
Aqueles longos cabelos
Pareciam endoidar
E sobre as ondas de ar
Disparavam a dançar

Depois que o vento parava
Pouco a pouco sobre as costas
As mechas se acomodavam

Tornou-se a grande atração
Daquela pequena cidade
Aquele desfile bonito
Que mais fazia lembrar
Cena de filme bíblico

Eles andavam em bando
Enquanto janelas se abriam
Pras pessoas curiosas
Os guardarem na memória

Com grandes brincos de ouro
E também lindos colares
As ciganas nos paravam
Querendo ler nossa sorte

Mal começavam a falar
Para um brilho dourado se notar
Eram os dentes de ouro
Marca forte desse povo
Que sua riqueza queria mostrar

Enquanto elas nos abordavam
Os homens batiam nas portas
Vendendo tachos de cobre
E outros objetos de arte

Alguns tinham sotaque
De uma língua estrangeira
Fazendo esforço pra falar
A nossa língua brasileira

No meio de tantos homens
Um rapaz se destacou

Ele era bem bonito
Alto, magro e elegante
Com cabelos muito pretos
Roupas muito coloridas
Parecia um artista
Numa praça de Madri

Povoou a fantasia
De muitas moças do lugar
Como um príncipe encantado
Que tivesse saído de um livro
Para ali se acampar

Perto da tenda deles
Todas queriam passar
Na esperança que ele
Lhes concedesse um olhar

E pra desencanto delas
Um dia saiu um boato
Que aquele lindo cigano
Ia enfim se casar

O acampamento era imenso
Nós fomos lá para ver
Parecia cenário de um filme
Que alguém estivesse a fazer

As ciganas não paravam
De um lado pro outro andavam
Com vasos sobre a cabeça
Muita água transportavam

Foi num dia de domingo
Que aquele belo cigano
Escolheu pra se enlaçar

Do lado de fora do cercado
Muita gente curiosa
Contemplava a alegria
Daquela gente misteriosa

Leitão assado pra todo lado
Que nós só sentimos o cheiro
Muito vinho nas garrafas
Para aquele povo festeiro

Dançando no centro da tenda
Os noivos estavam felizes
E todos batiam palmas
Igual num conto de fadas

04/04/2006